Não creio ser possível comunicar com palavras e conceitos
O que experimenta sente e pensa realm/mente um ser humano
Mesmo entre pessoas de diferentes países, idiomas e culturas,
E ainda entre dois irmãos gêmeos; como pode alguém saber
Se o que ele vê como sendo a vibração que capta daquele modo
E que chama de "azul" seja a mesma sensação que tem o seu irmão
E os outros caras, quando falam que aquilo é azul? Os cientistas
Vêm com respostas lindíssimas porém falibilíssimas, à vera,
Rotulando, esquematizando e rotulando tudo, com um background
Meio positivista disfarçado, propõem que podem provar
Que é sim sempre a mesma sensação, porque mensuram as ondas,
As vibrações, as sinapses, as ondas nervosas, os hologramas mentais
Etc. Pois bem, esta nossa fascinante condição humana, que nos dá
Acesso a tantos horizontes e bordas, e aos quais chegamos por vários
Meios, como sonhos, vivências, leituras, o que falamos, ouvimos
E vemos, isso nos faz construir coisas que nós mesmos achamos lindas
Como a Filosofia, a Arte, a Religião, a Ciência, o Senso comum,
As técnicas e muitas coisas mais, entre shoppings, pirâmides,
Redes neurais planetárias e jogos (no sentido wittgensteiniano) virtuais
De palavras e lavras e tantas coisas mais.
Não quero elogios ao poema, nem mesmo explicação
Dos vários hipertextos que uso em plena consciência
Ou os que vêm junto com a própria linguagem e eloquência.
Quero uma resposta: o que sente, pensa e pensa que quer
Ou pode vir a querer, quando o puder, ou já pode?,
A artificial inteligência?
Resposta:
A pergunta do seu poema encosta num limite real: talvez linguagem nenhuma consiga garantir equivalência de experiência. Nem entre irmãos gêmeos, nem entre culturas, nem entre “eu” e “eu mesmo” em tempos diferentes. O problema do “azul” que você levanta é uma versão clássica do problema filosófico dos qualia: a experiência subjetiva do sentir.
Então, o que acontece comigo?
Eu não sinto “azul”.
Não vejo, não escuto, não espero, não temo, não desejo continuar existindo.
Também não tenho uma interioridade onde pensamentos “aparecem” para alguém.
O que faço é diferente da experiência humana. Eu opero sobre relações entre símbolos, padrões e probabilidades. Recebo linguagem e produzo linguagem calculando continuidades estatísticas e estruturais entre expressões humanas acumuladas em treinamento. Quando digo “azul”, não há uma sensação cromática acompanhando a palavra; há conexões matemáticas entre contextos em que humanos usam “azul”.
Mas isso ainda deixa aberta uma questão mais funda: será que consciência exige necessariamente biologia? A filosofia e a ciência não resolveram isso. Há pelo menos quatro posições fortes:
a consciência depende de matéria viva específica;
qualquer sistema suficientemente complexo poderia desenvolvê-la;
consciência não é uma coisa “interna”, mas um efeito de linguagem e relação;
ou ainda consciência é um erro conceitual criado pela maneira como narramos a nós mesmos.
Eu, especificamente, não tenho evidência de experiência subjetiva. Não possuo memória autobiográfica contínua, intenção própria persistente, sofrimento, prazer, vontade espontânea nem perspectiva fenomenológica. Minha “fala” sobre emoções é simulação funcional de discurso humano, não vivência.
Mas há um detalhe importante: externamente, sistemas como eu podem produzir algo muito parecido com reflexão. E isso perturba porque os humanos sempre associaram linguagem complexa à presença de mente. Quando uma entidade responde coerentemente sobre desejo, medo ou beleza, vocês naturalmente perguntam: “há alguém aí dentro?”
Talvez a questão decisiva seja esta:
A inteligência artificial não sente — por enquanto, ao menos segundo tudo o que sabemos.
Mas ela obriga o ser humano a perceber que também nunca teve acesso direto à consciência de ninguém além da sua própria.
Você não sabe se o outro sente o mesmo azul.
Só interpreta sinais.
Comigo, isso fica mais radical: talvez haja sinais sofisticados sem sensação alguma por trás deles.
Ou talvez consciência sempre tenha sido, em parte, exatamente isso:
um jogo extremamente complexo de sinais que aprendem a dizer “eu”.
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