quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

boêmio

eu amava ouvir na vitrola o lp que meu pai ganhou (ele ganhava
muitos discos nas rádios onde apresentava programas de música
pela madrugada, ele que adorava música e tão bem cantava e ainda
sabia compor popular) A Rainha das Csarda (Csárdáskirálynő)
de Emmerich Kálmán e do outro lado vinham trechos seletos
de uma outra sua opereta Condessa Maritza (Gräfin Mariza)
cuja ária Meine Wien (Minha Viena) eu achava tão emocionante
e ficava cantando pela casa, mesmo sem entender à época o alemão
em que vinha a letra, eu imitava os sons, hoje você acho que nem
consegue entender, a única fonte era o disco ou um livro se conse-
guisse, ou então alguém com mais informação que pudesse falar
coisas sobre o tema em pauta; nessa época, não existia internet
nem no brasil nem no mundo, só nos estados unidos
havia um começo meio secreto utilizado pelo governo aliado
e seus comandos militares; lembro que eu fiquei encantado
com os textos que encontrei de um filósofo tedesco
cujo nome eu lia as letras porém não sabia
como pronunciar, um dia lembrei que o vizinho do ap de baixo
era jornalista (como já foi explicado, meu pai era radialista,
e morávamos num conjundo residencial exclusivo pra gente
do rádio e da imprensa, hoje é um condominio comum,
mas na época o era, e o nome da rua eu já tentei traduzir
do tupi, mas cada um acha que é uma coisa, até uma acepção
mística eu encontrei, a rua se chama Ajuratuba)
e fui perguntar pra ele, com o livro na mão, como se fala
o nome deste autor aqui? ele respondeu Nietzsche

hoje eu assisti a um vídeo da mesma professora brasileira
que foi uma das causas de eu não continuar no mestrado
de filosofia, porque foi pedido que lêssemos um texto dela
sobre Niezsche, e o que ela falava ali era muito pra baixo,
quase que uma vingança contra a força e a potência
tanto do pensador europeu quanto do ser humano;
na palestra a que assisti online ela fala coisas muito óbvias
totalmente entendidas por ela e por todos, sobre Nietzsche,
pois ela é considerada como se fosse uma grande especialista
sobre o assunto; já nem fiquei triste, ela fala bonito
de um jeito elegante, só fala coisa "certinha", e que, no entanto,
tenta transformar a força gigantesca do seu pensamento-vida
numa basófia mesquinha;

pra compreender Nietzsche (e na verdade junto com ele
os maiores poetas e pensadores de todas as línguas
do planeta e mais além) é preciso ser mais que um
burocrata, um colecionador de arquivos,
um colador de selos do desdém;
pra viajar com Nietzsche e outros poetas pensadores do seu naipe e seu calibre
é mister (atenção, meus alunos, essa palavra vem do latim eclesiástico
"ministerium", e não se pronuncia míster, e em português significa "função" e
"é preciso", no caso, é mistér) é necessário e urgente o sujeito ser boêmio de verdade
palavra que vem do francês "bohème", e se refere à região da Boêmia,
aos ciganos e artistas nômades que se supunha que vinham de lá,
mas a verdade de que falo é uma nobreza do espírito
e uma potência que quer ser vontade,
por isso cria e dança,
sempre a inventar,
não adianta fazer esqueminha sobre o pensamento do nosso amigo Frederico,
se a pessoa não quer entender isso

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